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Série CurtaContos (1) – Amanheceu

A série CurtaContos que começa a ser divulgada a partir desta edição, é de autoria de Navarco Maia, não terá uma periodicidade regular, mas promete aparecer de vez em quando no Blog. Os textos divulgados podem ser reproduzidos, à vontade, desde que divulgada a fonte e o crédito ao autor.
O primeiro CurtaConto chama-se Amanheceu, veja abaixo:

Amanheceu muito quente naquele princípio de dia, o calor era extremamente insuportável. O clima refletia a falta de chuvas dos últimos meses, o ar estava abafado, as pessoas não conseguiam respirar de forma adequada, o cansaço era latente no semblante das que acordavam naquela manhã do mês de setembro de um ano qualquer. As pessoas não tinham vontade de levantar, quase não tinham dormido na noite anterior, porque o calor era insuportável, mesmo durante a madrugada. Mas, foi neste clima quente, que nosso personagem principal teve que levantar para começar mais um dia de trabalho. E o dia dele, começava muito cedo, cedo demais para os padrões atuais, era cerca de cinco horas da manhã, quando ele finalmente saiu da cama rumo ao banheiro, a partir dali seu dia começava e não tinha hora para terminar, o clima quente contribuía acintosamente para o cansaço identificado no final do dia. Nosso personagem era mais um, entre tantos personagens que tinham o mesmo princípio de dia, e tinham a mesma rotina a cada novo dia. Sua vida resumia-se a levantar-se naquele horário, trabalhar até por volta das sete horas da noite e voltar para casa, ver seu futebol às quartas-feiras, aos sábados e aos domingos. Quase não dava atenção para a esposa e para os filhos, achava que simplesmente porque provia os recursos financeiros para a alimentação da família, pagava as contas em dia, não precisava dedicar-se a perder tempo com os filhos, dando atenção às pequenas coisas do dia-a-dia, que no final eram as que realmente interessavam para boa parte da família.
Nosso personagem era uma pessoa fria, amargurada com a vida, que não tinha satisfação com o trabalho, com a família, com os filhos e não tinha relacionamentos que perdurassem por mais tempo que um simples dia. Tinha uma vida pobre, infeliz e profundamente sem sentido. Apenas uma seqüência interminável de dias e dias completava a sua vida pobre e medíocre. Nosso personagem personificava a falta de personificação, era totalmente fora do mundo, andava perdido pelas ruas de uma grande metrópole, simplesmente andava a esmo, sem rumo e praticamente sem prumo, não via ninguém pela frente, era um legitimo trator por onde passava, destruía tudo que via pela frente. Era a personificação do próprio demônio em pessoa, não media esforços para destruir quem se interpusesse pelo seu caminho, seja no campo pessoal, financeiro ou profissional. Quase ninguém gostava dele, pois ele se portava, como se todos estivem em busca de barrar sua ascensão pessoal. Por esse e outros motivos, via todos como prováveis adversários. Era um competidor como uma idéia fixa, dizia para si mesmo: “vencer ou vencer, não importa como”. E assim praticamente passou sua vida, a passar os outros para trás, fazendo gangorras nas costas dos colegas, sempre buscando um passo acima em sua carreira. Não tinha dúvida em pisar em todos que por ventura estivessem em seu caminho. Nosso personagem era simplesmente, uma pessoa, se é pode-se chamá-lo de pessoa, sem escrúpulos, sem limite, que tudo podia, simplesmente porque todos que estavam aqui, estavam simplesmente para servi-lo.
Para não darmos importância, a quem não tem importância, vamos chamá-lo de “ninguém”.
Ninguém deu seqüência a seu dia, pegando o carro e indo para o trabalho, chegando na empresa, a recepcionista tentou, como vinha tentando nos últimos sete anos, dar um bom dia a ele, simplesmente porque era uma pessoa educada e que não deseja mal para ninguém.
– Bom dia, seu ninguém.
– Bom dia, por quê?
A recepcionista murchou como vinha murchando há sete anos. Ninguém foi direto para sua mesa, ligou seu computador e começou suas atividades do dia, ele não fazia nada de importante, porém se achava muito importante, diríamos mais, se achava o tal, simplesmente porque ocupava uma posição de chefia, chefiava alguns meninos que faziam pequenos serviços na rua, que normalmente buscavam a correspondência e distribuíam internamente, os office-boys da empresa. Ninguém os tratava como se nada fossem, como se não existissem, eles somente passavam a existir no momento, que Ninguém precisa de algo na rua.